terça-feira, 9 de novembro de 2010

De Tigre ao Rio: Darío Conca, obstinado e abençoado por D10S

Assim, à primeira vista, Don Torcuato pode não dizer nada para o torcedor do Fluminense. Mas o bairro, localizado no pequeno município de Tigre, na região metropolitana de Buenos Aires, é o berço do maior responsável pela proximidade do fim de um jejum que dura 25 anos na história tricolor. Lá, os Concas se proliferam. E o Conca “do Brasil” vira somente Darío, orgulho da família e ídolo máximo na atualidade de um clube que vive a ansiedade de soltar novamente para todo o Brasil o grito de campeão.

especial conca - penalti tigre 
Conca cobra pênalti pelo Tigre, primeiro clube que realmente o abrigou

Do alto do pouco mais de 1,60m de altura, Darío Conca deixou para trás a desconfiança de todos, até mesmo da própria família, superou a perda de seu maior incentivador e rompeu barreiras que teimavam em se repetir para, longe da Rua Santa Maria de Oro, onde deu seus primeiros chutes, se consagrar como futebolista, seu maior sonho. Mas longe mesmo, cerca de 2.800km - distância entre Buenos Aires e o Rio de Janeiro. Argentino “da gema”, o apoiador é daqueles que teimam em acreditar que Maradona é melhor que Pelé. Talvez por isso tenha tido com D10S - um jogo de letras com "Diós" e o número 10, imortalizado por Diego - o pontapé inicial perfeito para uma carreira que atravessou a desconfiança pelo porte físico de “chiquitito” para chegar ao auge no “país dos melhores”.

Com o Fluminense campeão ou não do Brasileirão, o menino que abraçou o ídolo pela primeira vez aos oito anos chegou, 19 anos depois, ao topo da carreira. Os seis gols e 17 assistências praticamente garantem o posto de melhor do país que o acolheu em 2006. Conquista única para um “hermano”. Algo tão importante que pode até mesmo se comparar ao dia em que se deparou com Diego e teve a certeza de que a “cancha” era seu habitat natural, como revelou o irmão Daniel Conca.

Foi muito difícil para que ele aceitasse jogar no Brasil. Muitas vezes ele disse que não, dizia
que era o país dos melhores jogadores. Mas depois que foi, jamais pensou em voltar"
Daniel, irmão de Conca
 
- Ainda no Boca, Maradona veio treinar em separado em um clube em Don Torcuato com mais dois jogadores, um deles era o Canniggia. Um amigo conseguiu nos colocar para ficar perto do campo. Estavam só os jornalistas e nós três: eu, ele e um primo. Conseguimos tirar fotos e foi um dia inesquecível. Maradona foi muito simpático, nos atendeu, foi uma coisa que nunca imaginamos acontecer e marcou muito para Darío.
Tratava-se, porém, do ponto alto de uma infância dividida entre a certeza de um talento raro com a perna esquerda e as muitas dúvidas geradas pelos percalços até o profissionalismo. Toda essa história começou lá atrás, no distante ano de 1984, quando com pouco mais de um ano de vida Darío Conca já tinha tomado uma decisão: ter a bola como sua companheira inseparável.

- Quando tinha um ano, ele já dormia com a bola entre as pernas. Ao adormecer, eu tirava com medo de gerar algum problema, mas ele acordava e buscava pela casa. Desde muito pequeno sempre gostou de futebol - recordou Dora, mãe do craque tricolor.

River Plate: palco da primeira oportunidade e das maiores frustrações
Filho de uma faxineira e um mecânico, Conca teve que superar um obstáculo comum a muitos brasileiros: a pobreza. Destaque no clube Belgrano, de seu bairro, e sensação na Escola 23, quando sempre jogou com garotos mais velhos, ele chamou a atenção do gigante River Plate aos nove anos e foi convidado para uma peneira. A oportunidade mobilizou a família. O primeiro passo para o sonho estava dado. Entretanto, a distância entre Don Torcuato e Buenos Aires surgiu como empecilho.

- Ele foi observado jogando pela escola, e vieram à minha casa pedir para o levarem. Conca se destacou em um torneio, foi o melhor jogador. Acabou participando de uma peneira em que só dois meninos foram aprovados em 900. Mas não durou muito. No máximo, seis meses. Não tínhamos dinheiro, nem tempo. Eu e meu marido trabalhávamos, o clube não podia ajudar e acabamos parando. Era muito longe ir até o River para treinar - contou Dora.

especial conca - river plate 
Conca em uma das poucas oportunidades no River

Conca, por sua vez, só tinha uma preocupação: manter-se com a bola nos pés. Fosse nos campos de terra de seu bairro ou na grama perfeita dos campos anexos do Monumental de Muñez.
- Sempre fomos sinceros, e ele entendeu que não tínhamos condição. Darío sabia o quanto trabalhávamos e, como sempre jogou em times de bairro, não viu problemas.

A Escola 23 voltou a ser sua “casa de espetáculos” por mais três anos. As atuações destacadas nos clássicos contra a Escola 38, porém, deixavam a certeza de que novas oportunidades eram questão de tempo. Dito e feito. Aos 12, um convite mais palpável. E o melhor, no time de coração de Darío, o Tigre.

especial conca - com maradona 
Conca posa ao lado do ídolo Maradona

- Foi no Tigre que tudo começou de verdade. Ele começou nas categorias de base, depois foi para o time reserva, uma espécie de time B, e estreou entre os profissionais com somente 15 anos, ainda na Segunda Divisão. Mas foi só uma partida – disse Daniel.

O sucesso imediato e o debute precoce entre os profissionais o levaram até Victor Hugo Delgado, ex-jogador do River Plate e que se transformou em uma espécie de padrinho. O clube de Nuñez acabou se tornando o destino natural e, mais uma vez, responsável por uma desilusão, conforme explicou o irmão. Se, no Tigre, Conca era o grande xodó, no River voltou a ser mais um e regressou na tortuosa rota que achava já ter superado.

- Quando ele chegou ao River, todo mundo ficou muito contente. Mas não foi como imaginávamos. Darío não chegou ao profissional, voltou para base e teria que passar por toda aquela luta de novo.
Lesão tira Conca da seleção. Morte do pai quase o tira dos gramados
Na base, o camisa 11 do Fluminense trocou as lamentações pela dedicação. Deu novamente a volta por cima. Mas o River, definitivamente, não era o seu lugar. Em 2003, Conca disputava uma vaga na seleção sub-20 que disputaria o Mundial nos Emirados Árabes com uma geração que contava com nomes como Mascherano e Maxi López, até que, com a camisa vermelha e branca, sofreu a pior lesão da carreira: uma fratura na perna direita.

- Ainda no River, jogando pelos reservas, ele teve uma fratura que o deixou muito triste. Ficou seis meses fora dos campos, custou a se recuperar, principalmente por ter sido na época em que lutava para jogar o Mundial Sub-20. Foi uma grande frustração que ele demorou a superar - afirmou Dora.

especial conca - tigre 
Conca posa para foto com camisa do Tigre

O momento mais difícil, no entanto, ainda estava por vir. As lesões, a falta de reconhecimento no River e a pobreza se transformaram em pedras de gelo diante do iceberg que se colocou no caminho de Conca assim que, enfim, ascendeu aos profissionais. Procurado pelo Universidad Católica, do Chile, o apoiador tinha aberta a porta de saída para as escassez de oportunidades no River Plate. A emoção de sua mãe ao não conseguir completar, entre lágrimas, a história deixou claro que, mais uma vez, o sucesso veio acompanhado de dificuldades. Neste caso, a maior delas.

- Foi difícil por muitas coisas...(pausa emocionada) - disse Dora Conca, sem conseguir falar.
Daniel ajudou a mãe e completou:
- Três meses antes de Darío viajar para o Chile, nosso pai faleceu. Tudo foi muito difícil. Darío não queria mais jogar, ficou semanas sem treinar. Todos nós queríamos que nosso papai realizasse o sonho de vê-lo jogar entre os profissionais - afirmou, também emocionado. - Mas o que aconteceu acabou dando ainda mais força para que lutasse e buscasse os objetivos.

A perda do maior incentivador baqueou o sempre obstinado Darío. Nada que fosse capaz de impedir que realizasse seu sonho. Como que içado pelo pai Roberto, buscou forças para encarar o desafio longe de tudo e todos, em um outro país, e finalmente poder se dizer um vencedor na batalha até o profissionalismo.
- No Católica tudo mudou. Ali vimos que ser jogador era realmente o que ele queria. Não pensávamos que ele ia chegar a tanto por ser muito pequeno. Imaginávamos que não ia conseguir. Como pais, nunca tiramos dele a esperança, mas sabíamos que era algo muito difícil - contou Dora.

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Dora, mãe de Conca, Daniel, o irmão, e o sobrinho
Thiago 

No Brasil, Conca encontra o seu lugar
Em Santiago, a eterna promessa do River virou realidade, o baixinho se tornou gigante com a bola nos pés, e o filho realizou o sonho do pai que recentemente o tinha deixado. Foram 85 jogos, 15 gols e atuações destacadas, principalmente na Copa Sul-Americana de 2004. Tudo caminhava bem, e as surpresas passaram a ser positivas, como o convite para jogar no Brasil após curta passagem pelo Rosário Central, em 2006. Convite até certo ponto assustador, como contou o irmão Daniel, mas que se transformou em um divisor de águas em sua carreira.

- Foi muito difícil para que aceitasse ir ao Brasil. Muitas vezes ele disse que não, achou que não fosse jogar nunca, dizia que era o país dos melhores jogadores. Mas depois que foi, jamais pensou em voltar. Desde a chegada, gostou muito do país, foi muito bem recebido. Quando vamos ao Brasil e vemos tudo o que fazem por ele, ficamos impressionados. Nunca pensamos conquistar tanto.

Para mim, é um orgulho. É um orgulho ver que tudo que lutamos valeu a pena. Passamos por momentos difíceis, caminhávamos 12 quarteirões para não gastar dinheiro e levá-lo aos treinamentos. Fizemos sacrifícios"
Dora Conca, mãe de Darío
E ainda pode conquistar mais. No dia 5 de dezembro, parte da família de Conca estará no Engenhão, para a partida contra o Guarani, pela última rodada do Brasileirão, que pode garantir o primeiro título com a camisa do Fluminense. Um título representativo, que o colocará na eternidade tricolor, acabando com um jejum de 25 anos e deixando ainda mais orgulhosa uma mamãe que não mediu esforços para satisfazer o filho.
- Para mim, é um orgulho. É um orgulho ver que tudo que lutamos valeu a pena. Passamos por momentos difíceis, caminhávamos 12 quarteirões para não gastar dinheiro e levá-lo aos treinamentos. Fizemos sacrifícios.

Entre tantas conquistas, porém, uma lacuna se faz presente no currículo de Darío: a seleção argentina. Depois da lesão em 2003, a camisa alviceleste não se fez mais presente em seu corpo. Para muitos no Brasil, fato inexplicável. Já para o irmão Daniel, fruto da passagem mal-sucedida por gramados portenhos.

especial conca - seleção sub-20 
Conca (o primeiro agachado da esquerda para a direita) na seleção sub-20 

- Como quase não jogou em nosso país e não é tão conhecido como D'Alessandro, por exemplo, não dão oportunidade. É algo que gostaríamos muito, mas não ficamos esperando mais.
O sonho de ver o irmão em um Mundial, por outro lado, não está diretamente ligado ao próprio país, e a família dá o aval caso Conca opte por defender a amarelinha.
- Se o Brasil o convidasse, nós o apoiaríamos. Queremos vê-lo em uma seleção, uma Copa do Mundo, uma Copa América...

especial conca - primeira casa 
Casa simples onde Conca passou a infância

A falta de reconhecimento dos argentinos não é algo que incomode os Conca. Ciente do carinho com que Darío é tratado no Brasil, os familiares não o veem longe do país em um futuro próximo. Na opinião de Daniel, nas Laranjeiras ele está “em casa”. Tão em casa, que o irmão até dá seu conselho no badalado caso da renovação de contrato.

- Queremos que fique no Fluminense. Lá ele encontrou seu lugar. Adoramos o Brasil e o Rio. E ele é muito querido pela torcida, por todo mundo. Gostaríamos que jogasse no River, no Boca ou no Tigre para que todos nós o víssemos mais perto. Mas pode ser só por um ano, antes de se aposentar.

Da Argentina ao Brasil. De Tigre ao Rio de Janeiro. De Don Torcuato às Laranjeiras. Superar obstáculos e encurtar distâncias se tornou rotina para Darío Conca, o baixinho que ignorou as grandes pedras da vida para ser venerado quase que como um deus pelo Fluminense. Dezenove anos depois da foto com seu D10S, os flashes mudaram de lado e a estrela no país do futebol é ele.

especial conca - casa nova 
Casa comprada por Conca para família em Tigre

Fonte: Globo.com
Marivaldo Lima

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